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terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Um pouco de ética

       A palavra ética é de origem grega "ethos", e quer dizer o modo de ser, o caráter. Os romanos traduziram o "ethos" grego, para o latim "mos" (no plural "mores"), que significa costume, de onde vem a palavra moral. Tanto "ethos" (caráter) como "mos" (costume) indicam um tipo de comportamento propriamente humano que não é natural, pois o homem não nasce com ele como se fosse um instinto, mas que é adquirido ou conquistado por hábito. Ética e moral, portanto, pela própria etimologia, diz respeito a uma realidade humana que é construída histórica e socialmente a partir das relações coletivas onde nascemos e vivemos.

        É comum esquecermos cotidianamente a distinção entre ética e moral, usando-as como sinônimos. Normalmente, por força das circunstâncias, apenas os estudiosos diferenciam  essas palavras. Assim, a moral é definida como conjunto de princípios, normas, preceitos, costumes, valores que norteiam o comportamento do indivíduo no seu grupo social. A moral é normativa. A moral católica, por exemplo, é um conjunto de normas ou procedimentos que devem ser respeitados e cumpridos. Como a religião serve para organizar coletivamente essa relação dos fiéis com Deus, o "religare" processa-se notadamente pela fé na existência de Deus (único, criador, onisciente, onipresente,...), na leitura da Bíblia, na frequência à missa, etc.
 
        A ética, por outro lado, é definida como a teoria, o conhecimento ou a ciência do comportamento moral que busca explicar, compreender, justificar e criticar a moral ou as práticas morais de uma sociedade. A ética é filosófica e científica. Quando o filósofo inglês Thomas More afirma que "nenhum homem é uma ilha", ajuda-nos a compreender que a vida é convivência. É justamente na vida social e comunitária que o homem se descobre e se realiza enquanto ser ético e moral. É na relação com o outro que surgem os problemas e as indagações morais: o que devo fazer? Como agir em determinadas circunstâncias? Como devo votar nas próximas eleições, sabendo que um certo político multiplicou por vinte vezes, nos últimos quatro anos, o patrimônio que possuía? Como posso participar do "jogo político", sabendo que o jogo é "pesado" e que negociação política e dignidade são duas irmãs em permanente conflito? Posso cobrar algo do político que, na escola, reprovava em Matemática e hoje "engana-se "quando o assunto é dinheiro público, superfaturando obras ou desviando verbas de hospitais, Pronto Socorro, ou da merenda escolar?
        Estamos constantemente no nosso cotidiano enfrentando situações que nos apresentam problemas morais. São problemas práticos e concretos da nossa vida em sociedade, ou seja, problemas que dizem respeito às nossas decisões, escolhas, ações e comportamentos - os quais exigem uma avaliação, um julgamento, um juízo de valor entre o que socialmente é considerado bom ou mau, justo ou injusto, certo ou errado, pela moral vigente.
        O problema é que não costumamos refletir e buscar os "porquês" de nossas escolhas, dos comportamentos, dos valores. Agimos por força do hábito, dos costumes e da tradição, tendendo a naturalizar a realidade social, política, econômica e cultural. Assim, perdemos nossa capacidade crítica diante da realidade. Em outras palavras, não costumamos fazer ética, pois não fazemos a crítica, nem buscamos compreender e explicitar a nossa realidade moral .
         No Brasil, encontramos exemplos de toda ordem. Nossa sociedade é marcada pelas injustiças socio-econômicas, pelo preconceito racial e sexual, pela exploração de mão-de-obra infantil, pelo "jeitinho" e a "lei de Gérson", etc. Estamos diante de problemas muito sérios. Contudo, já estamos cansados das mentiras que procuram nos convencer  que a desigualdade, a fome e a miséria existiram desde sempre. Contudo, os problemas decorrentes da decadência ética não podem ser resolvidos apenas com a educação moral do indivíduo. É preciso que exista vontade política para alterar as condições patogêncas geradoras da doença social, para que se possa dar possibilidade de superação da pobreza moral.
           Em outras palavras, "não basta reformar o indivíduo para reformar a sociedade" .  Um projeto moral desconectado do projeto político está destinado ao fracasso. Os dois processos devem caminhar juntos, pois "formar"  o homem plenamente moral só é possível na sociedade que também se esforça para ser justa.

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