Para entender a importância da Filosofia vamos aqui encará-la, inicialmente, no Ensino Secundário. Em seu livro “Filosofia no Ensino Médio” (2000), ainda no prólogo, o professor de Filosofia e Educação, Antônio Joaquim Severino, da Faculdade de Educação da USP, entende o exercício do filosofar como uma exigência própria da condição humana e, consequentemente, considera o ensino da filosofia uma mediação pedagógica imprescindível para a formação dos homens histórica e socialmente situados. Essa necessidade, segundo Severino, justifica-se à luz de uma concepção de existência humana fundada na dignidade da pessoa, bem como à luz da percepção de que essa dignidade só pode ser garantida e implementada a partir das suas mediações históricas, ou seja, através do trabalho, da participação social, no mundo da cultura e do desenvolvimento cultural das pessoas (...). Não há, pois, como inserir as novas gerações no mundo do trabalho, no mundo da participação social, no mundo da cultura, de maneira ingênua, automática, mecânica ou dogmática. Por isso, a função da educação é exatamente explorar esta que é a única ferramenta: o conhecimento.
Todos aqueles que desejam inserir-se no mundo da cultura contemporânea precisam ver o mundo e abordá-lo filosoficamente. Isso serve aos estudantes próximos da conclusão do Ensino Médio, seja para ingresso no mundo do trabalho ou na busca do ensino propedêutico para ingresso na Universidade.
A superação do senso comum e do egocentrismo cognitivo – centrado no próprio aluno, em “seus valores” e sentimentos - depende da alavanca que a filosofia pode proporcionar. O estudo de Filosofia é condição indispensável para o jovem buscar perspectivas, modificar conceitos, alargar os horizontes de sua compreensão sobre o mundo e a cultura. Mas para que o ser humano é educado? Para o pleno exercício da liberdade e da responsabilidade ou para se manter dentro da ordem estabelecida? Em outras palavras, educamos para que cada homem possa pensar autonomamente ou para aceitar as regra que os outros pensaram para ele.
O ensino de filosofia, durante o Brasil Colônia, apresentava um conteúdo que legitimava o poder hegemônico das elites dominantes. Nos anos de chumbo da ditadura, nossos jovens tiveram vetado o direito de pensar, reprimindo o desenvolvimento do seu juízo crítico.
Evidentemente faltam atores no palco. Sobram máscaras, especialmente na política. Os movimentos estudantis estão enfraquecidos. Grêmios Estudantis historicamente desconstituídos são maquiavelicamente recompostos em processos eleitorais, induzidos por Diretores, sempre virtuais candidatos, cujas regras nem sempre são minimamente respeitáveis do ponto de vista democrático. Diretórios Acadêmicos e DCEs, Centrais Sindicais, Sindicatos e demais movimentos sociais hibernam, deitados em berço esplêndido, sonâmbulos das guaritas do poder. Como aranhas, enroscaram-se, tranqüilas, à própria teia à espera de uma vítima, da mesma espécie, talvez. Preocupados com seus interesses pessoais, parece que já não querem mudar o mundo; parafraseando o poeta Renato Russo ”quem mudou nossa coragem?”
Para piorar este quadro, os valores estão cada vez mais banalizados, onde o fundamentalismo econômico ou o neoliberalismo aprofunda e engendra novas formas de miséria material e espiritual, constituída pelo binômio da barbárie pós-moderna: violência e insegurança. Barbárie, que também é a redução do homem à condição de” massa sobrante” que vale nada para o mercado que espera lucro e competitividade a qualquer preço.
Essa crise de valores afeta frontalmente a escola.O ensino médio passa por uma crise profunda de sentido. Existe evasão, reprovação, violência física e verbal, falta de significado do que é estudar, de entusiasmo ao corpo docente, de interesse dos alunos e de investimento significativos do poder público. Para a escola, sua estrutura e salário de professores e funcionários, faltam verbas.Sobram menores desassistidos nas ruas e políticos corruptos encastelados em palácios públicos e privados. Faltam policiais nas corporações e salários dignos às polícias e aos bombeiros. Faltam trabalhadores qualificados, sobram “picaretas” especializados. Falta diálogo entre prefeituras e trabalhadores, sobram consultorias. Faltam “exemplares de gado” nas escolas, sobram ferraduras em Secretarias.
O raciocínio filosófico, nesse contexto de perplexidade, ao questionar, faz retomar, mergulhar nessa realidade, tornando-a de sua reflexão, levando os alunos a questionar sobre aquilo que estão fazendo – muitas vezes de modo mecânico. Afinal, a filosofia não muda o mundo, a filosofia muda o homem, e este pode mudar o mundo. Sem Filosofia não há vida democrática possível.
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