O professor Paulo Freire é indiscutivelmente um dos nossos maiores Filósofos e Pedagogos. Jamais deixou de responder uma carta a quem o questionasse ou solicitasse maiores esclarecimentos sobre alguma das questões propostas em seus livros. Sobre a sua visão de Universidade, em texto intitulado "A Universidade de meu Sonho", ele assim respondeu:
"Você me pediu que escrevesse algumas palavras sobre a 'Universidade de meu Sonho'.". Em primeiro lugar, gostei da formulação de seu pedido. Sonho é uma palavra de assídua frequência nas minhas falas como nos meus escritos. O sonho como antecipação desenhada do que buscamos tem sido, ao longo de minha vida, um ingrediente de minha prática.
Parece que devo explicar melhor o que quero dizer. Falo do sonho como projeto social e não puramente individual, de sonho historicamente possível e não do sonho, ora expressão voluntarista de uma subjetividade que se pensa a si mesma todo poderosa, ora expressão de uma consciência que se desgarra do real, perdendo-se em meros devaneios. O sonho de que falo é o sonho com algo que pode vir a ser concretizado, hoje ou amanhã, com algo engendrando-se na História. Nesse sentido, o sonho envolve a luta pela realização do sonhado, que deve ser conquistado e não recebido como doação.
Se não é possível sonhar fora da História, não é possível também, numa visão crítica do sonhar, imobilizar o sonho, transformando-o num modelo impecável, acabado, fixo, dentro do sonho, fazendo-se na práxis, no bojo dos conflitos sociais, o sonhado é processo, tem historicidade.
Outro aspecto que me parece importante salientar em toda esta questão do sonho e do sonhado é que há sonhados cuja materialização plena pressupõe ou demanda a concretização de um "sonhado anterior", nem sempre criticamente percebido por quem sonha. Diante desta constatação precisamente para prevenir no sentido de evitar cair em uma das tentações - a tentação segundo a qual basta sonhar para que o sonho se faça real e mecanicista, segundo a qual nada é possível fazer em favor do sonho que se sonha, antes que se verifiquem transformações radicais no contexto em torno de que se sonha.
Meu sonho de universidade passa necessariamente pelo meu sonho de sociedade. Se, porém, a Universidade de meu sonho não pode preceder a sociedade de meu sonho, ela não pode esperar que aquela se efetive para ensaiar seus primeiros passos.
A Universidade que aí está, que não é a de meu sonho, em dinâmica relação com a sociedade de classes, burguesa, que obviamente também não é a do meu sonho, não é, porém, pura reprodutora da ideologia dominante desta sociedade. Neste sentido, a luta pela Universidade de meu sonho, substantivamente democrática, deselitizada, séria, comprometida com a ciência sem ser cientificista, rigorosa, competente, crítica, exigente, criadora, avessa a qualquer forma de dicotomia: pesquisa, docência (produção do conhecimento, conhecimento do conhecimento existente); autoridade, liberdade; texto, contexto; ler, escrever; saber popular, saber acadêmico; teoria, prática; ensinar; aprender, a luta pela Universidade de meu sonho se dá politicamente na intimidade da Universidade real, concreta, em que me acho. A luta por ela se dá na luta política a favor da sociedade com que sonho, que não aparece por acaso, nem por decreto, nem por voluntarismo de nenhuma espécie, mas pela transformação da que aí está, concreta, real.
Por isso é que a posição tradicionalista, cega e surda aos interesses de classe no espaço escolar e para a qual ensinar e aprender são atos puros e castos, em nada tem a ver com o meu sonho de Universidade.
"Você me pediu que escrevesse algumas palavras sobre a 'Universidade de meu Sonho'.". Em primeiro lugar, gostei da formulação de seu pedido. Sonho é uma palavra de assídua frequência nas minhas falas como nos meus escritos. O sonho como antecipação desenhada do que buscamos tem sido, ao longo de minha vida, um ingrediente de minha prática.
Parece que devo explicar melhor o que quero dizer. Falo do sonho como projeto social e não puramente individual, de sonho historicamente possível e não do sonho, ora expressão voluntarista de uma subjetividade que se pensa a si mesma todo poderosa, ora expressão de uma consciência que se desgarra do real, perdendo-se em meros devaneios. O sonho de que falo é o sonho com algo que pode vir a ser concretizado, hoje ou amanhã, com algo engendrando-se na História. Nesse sentido, o sonho envolve a luta pela realização do sonhado, que deve ser conquistado e não recebido como doação.
Se não é possível sonhar fora da História, não é possível também, numa visão crítica do sonhar, imobilizar o sonho, transformando-o num modelo impecável, acabado, fixo, dentro do sonho, fazendo-se na práxis, no bojo dos conflitos sociais, o sonhado é processo, tem historicidade.
Outro aspecto que me parece importante salientar em toda esta questão do sonho e do sonhado é que há sonhados cuja materialização plena pressupõe ou demanda a concretização de um "sonhado anterior", nem sempre criticamente percebido por quem sonha. Diante desta constatação precisamente para prevenir no sentido de evitar cair em uma das tentações - a tentação segundo a qual basta sonhar para que o sonho se faça real e mecanicista, segundo a qual nada é possível fazer em favor do sonho que se sonha, antes que se verifiquem transformações radicais no contexto em torno de que se sonha.
Meu sonho de universidade passa necessariamente pelo meu sonho de sociedade. Se, porém, a Universidade de meu sonho não pode preceder a sociedade de meu sonho, ela não pode esperar que aquela se efetive para ensaiar seus primeiros passos.
A Universidade que aí está, que não é a de meu sonho, em dinâmica relação com a sociedade de classes, burguesa, que obviamente também não é a do meu sonho, não é, porém, pura reprodutora da ideologia dominante desta sociedade. Neste sentido, a luta pela Universidade de meu sonho, substantivamente democrática, deselitizada, séria, comprometida com a ciência sem ser cientificista, rigorosa, competente, crítica, exigente, criadora, avessa a qualquer forma de dicotomia: pesquisa, docência (produção do conhecimento, conhecimento do conhecimento existente); autoridade, liberdade; texto, contexto; ler, escrever; saber popular, saber acadêmico; teoria, prática; ensinar; aprender, a luta pela Universidade de meu sonho se dá politicamente na intimidade da Universidade real, concreta, em que me acho. A luta por ela se dá na luta política a favor da sociedade com que sonho, que não aparece por acaso, nem por decreto, nem por voluntarismo de nenhuma espécie, mas pela transformação da que aí está, concreta, real.
Por isso é que a posição tradicionalista, cega e surda aos interesses de classe no espaço escolar e para a qual ensinar e aprender são atos puros e castos, em nada tem a ver com o meu sonho de Universidade.
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